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“Não sou eu que estou dizendo”: quando a crítica aos procedimentos estéticos precisa valer para todos

  • há 4 horas
  • 6 min de leitura

Cirurgia também tem riscos e segurança não depende apenas da técnica, mas da capacitação de quem a executa


Nas redes sociais, tornou-se cada vez mais comum assistir a profissionais da área da saúde utilizando estudos científicos, alertas de órgãos reguladores e relatos de complicações para questionar determinados procedimentos estéticos.

Entre os cirurgiões plásticos que ganharam notoriedade nas redes sociais está o Dr. Carmelo, conhecido por divulgar resultados de técnicas cirúrgicas de lifting facial, especialmente o chamado deep plane facelift.


Nos últimos anos, seus conteúdos também passaram a abordar e frequentemente questionar procedimentos não cirúrgicos, como ultrassom microfocado, radiofrequência, laser, peelings, preenchimentos com ácido hialurônico, bioestimuladores e skinboosters.

O argumento costuma ser apresentado com uma frase que já se tornou uma espécie de marca registrada de seus vídeos:

“Não sou eu que estou dizendo. É...”

E então aparecem artigos científicos, profissionais estrangeiros, estudos ou comunicados de órgãos reguladores.

O método, em princípio, é correto: ciência não deve ser baseada em opinião pessoal.

Mas existe uma pergunta que também precisa ser feita.

E quando o procedimento é cirúrgico?

A mesma régua científica utilizada para questionar procedimentos minimamente invasivos precisa ser aplicada às cirurgias plásticas.

Porque existe uma verdade que não pertence à estética, à cirurgia ou a qualquer profissão específica:

nenhum procedimento médico é isento de risco.

A própria International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) contabilizou mais de 2,3 milhões de procedimentos cirúrgicos estéticos realizados no Brasil em 2024, colocando o país na liderança mundial em número de cirurgias estéticas.

E cirurgia, por definição, não deixa de ser cirurgia porque tem finalidade estética.

Há anestesia.Há incisão.Há manipulação de tecidos.Há sangramento.Há possibilidade de infecção.Há cicatrização.Há risco tromboembólico.Há possibilidade de lesão nervosa.Há necessidade de avaliação pré-operatória e acompanhamento pós-operatório.

Portanto, segurança não pode ser uma bandeira utilizada apenas quando se fala do procedimento do outro.




Os números também precisam entrar nessa discussão

Dados do Conselho Nacional de Justiça indicam que, até 30 de novembro de 2025, foram registrados 66.097 novos processos relacionados a cirurgias gerais, de urgência e eletivas no Brasil. Em 2024, foram 68.203.

É importante fazer uma ressalva jornalística: esses números representam processos judiciais, e não erros cirúrgicos comprovados pela Justiça.


Ainda assim, o dado revela que existe uma importante discussão sobre segurança, responsabilidade e assistência cirúrgica no país. Entre os incidentes relacionados a centros cirúrgicos aparecem situações extremamente graves, como retenção não intencional de materiais no corpo do paciente e procedimentos realizados em local ou até em paciente errado.

E há outro número que merece atenção.


Em 2025, foram registrados 91.391 novos processos por danos materiais e/ou morais relacionados à prestação de serviços de saúde, sendo 70.276 referentes à saúde privada e 21.115 à saúde pública.

Isso não significa que 91 mil profissionais tenham cometido erro médico.

Significa que a relação entre assistência em saúde, eventos adversos, insatisfação, responsabilidade profissional e judicialização é uma realidade que precisa ser discutida com seriedade.

O problema não é a tecnologia. É como ela é utilizada.

E aqui chegamos ao ponto central.

É perfeitamente legítimo questionar um aparelho.

É legítimo questionar um ativo.

É legítimo questionar uma técnica.

É legítimo apresentar estudos demonstrando limitações, contraindicações, efeitos adversos ou ausência de evidências suficientes.

Mas existe uma diferença enorme entre dizer:

“Este procedimento apresenta limitações.”

e afirmar, de maneira generalizada:

“Este procedimento não funciona.”

A primeira afirmação pode ser científica.

A segunda exige evidências muito mais robustas.


Porque resultados em medicina e estética dependem de inúmeras variáveis:

indicação correta + seleção do paciente + anatomia + diagnóstico + técnica + parâmetros + produto ou equipamento adequado + capacitação profissional + assepsia + acompanhamento + resposta individual.


Uma tecnologia mal utilizada pode produzir um resultado ruim.

Isso não necessariamente transforma a tecnologia em inútil.

Da mesma forma, uma cirurgia mal indicada ou mal executada não transforma a cirurgia plástica em uma prática ineficaz.

O problema pode estar na indicação, na execução ou na seleção do paciente — e não necessariamente na ferramenta.


A própria FDA faz esse alerta.E aqui está uma situação interessante. Em outubro de 2025, a FDA publicou uma comunicação de segurança sobre determinados usos de microagulhamento associado à radiofrequência (RF).

O órgão americano relatou complicações gr

aves associadas a determinados usos desses dispositivos, incluindo queimaduras, cicatrizes, perda de gordura, desfiguração e danos nervosos.

Mas observe o que a FDA recomenda.

Ela não afirma simplesmente que toda radiofrequência microagulhada é inútil ou que toda tecnologia deve ser abandonada.


Ao contrário: orienta que o procedimento seja realizado por profissional habilitado, com treinamento e experiência, e quesejam discutidos os riscos e benefícios com o paciente.

Essa diferença é fundamental.


O alerta é sobre segurança, indicação, treinamento e uso adequado.

Não sobre demonizar uma tecnologia inteira.

“Não somos nós que estamos dizendo. São os dados.”

Se vamos utilizar essa frase como princípio, então precisamos utilizá-la para todos.

Não podemos exigir evidências científicas quando estamos falando de um preenchimento facial e abandonar a mesma exigência quando estamos falando de uma cirurgia.


Não podemos apontar complicações de um equipamento e ignorar que cirurgias também apresentam complicações.

Não podemos transformar um resultado ruim em prova de que determinada tecnologia “não funciona”, enquanto um resultado cirúrgico ruim é automaticamente tratado como uma exceção.


A ciência não pode ter dois pesos e duas medidas.

O paciente merece uma informação equilibrada.

Ele precisa saber:

  • o que o procedimento pode fazer;

  • o que ele não pode fazer;

  • quais são as evidências disponíveis;

  • quais são as contraindicações;

  • quais são os riscos;

  • quem está habilitado a executá-lo;

  • quais resultados são realisticamente possíveis;

  • e quais alternativas existem.


Isso vale para o ultrassom, o laser. Vale para a radiofrequência.Peeling. Ácido hialurônico, bioestimuladores e skinbooster.

E vale, igualmente, para uma cirurgia plástica.


O paciente não precisa escolher entre cirurgia e estética não cirúrgica

Essa talvez seja a discussão mais importante.

Existe uma tendência nas redes sociais de transformar a medicina estética em uma espécie de disputa:

cirurgia versus procedimentos não cirúrgicos.

Mas o paciente não deveria ser colocado diante dessa falsa escolha.

Existem pacientes para os quais a cirurgia será a melhor indicação.

Existem pacientes que podem obter resultados satisfatórios com procedimentos minimamente invasivos.

E existem pacientes para os quais nenhum procedimento naquele momento será a melhor escolha.

A medicina responsável começa justamente quando o profissional consegue dizer isso.

Porque o objetivo não deveria ser provar que determinada técnica é melhor que outra.

O objetivo deveria ser escolher a técnica mais adequada para aquele paciente.


A Capacitação é o verdadeiro ponto de convergência. Talvez seja aí que cirurgiões plásticos, médicos de outras especialidades e profissionais habilitados da estética possam concordar.


Não existe aparelho que substitua conhecimento. Assim como não existe produto que substitua anatomia.

Não existe tecnologia que substitua diagnóstico e não existe técnica que substitua treinamento.


E não existe procedimento absolutamente seguro quando realizado sem a capacitação necessária.

A própria FDA, ao tratar dos dispositivos de microagulhamento, recomenda expressamente que eles não sejam utilizados por profissionais sem treinamento ou experiência adequada.

Portanto, a discussão deveria ser menos sobre “qual procedimento é melhor?” e muito mais sobre:

Quem está executando?

Qual foi a indicação?

Qual é a formação?

Qual tecnologia está sendo utilizada?

Qual produto foi utilizado?

Quais são os parâmetros?

Quais são os riscos?

Existe acompanhamento?

E quais são as evidências científicas disponíveis?

Essa é uma discussão muito mais madura.

A ciência não pertence a uma profissão

Cirurgião plástico merece respeito.

Dermatologista merece respeito.

Biomédico habilitado merece respeito.

Enfermeiro habilitado merece respeito.

Fisioterapeuta habilitado merece respeito.

Esteticista habilitado merece respeito dentro de seu campo de atuação.


Mas nenhum título profissional concede monopólio sobre a verdade científica.

A ciência é construída por evidências, metodologia, pesquisa, análise crítica e atualização constante.

E justamente por isso, nenhum profissional deveria precisar diminuir a área de atuação de outro para valorizar a própria.O p aciente é quem deveria estar no centro.

Não o ego profissional.

Não a disputa de mercado.

Não o algoritmo.

Não o número de seguidores.


No final, “não sou eu que estou dizendo” precisa valer para todos

Se um profissional aponta um estudo para mostrar que determinado procedimento possui limitações, devemos ler o estudo.

Se outro profissional apresenta evidências de eficácia, devemos analisar também.


Se uma agência reguladora emite um alerta, precisamos entender exatamente qual tecnologia, qual indicação e quais circunstâncias estão sendo questionadas.


E se existem dados mostrando complicações cirúrgicas, eles também precisam ser colocados na mesa.

Porque procedimento bom não é aquele que pertence à profissão que eu defendo.


É aquele que foi corretamente indicado, realizado dentro das competências profissionais, com produto ou equipamento adequado, técnica apropriada, segurança e acompanhamento. No fim das contas, talvez a frase mais importante não seja:

“Não sou eu que estou dizendo.”

Mas sim:

“Vamos olhar todos os dados, inclusive aqueles que não favorecem a nossa própria narrativa.”

Porque quando o assunto é saúde, o paciente merece mais do que opinião. Merece informação completa.

Nota editorial: os números de 66.097 processos e 91.391 ações são dados de judicialização e não equivalem a erros médicos comprovados ou condenações. Já os 2,3 milhões de procedimentos cirúrgicos estéticos correspondem ao levantamento global da ISAPS para 2024.


Texto : mostb.com

FDA - Sobre Deep-Plane Lifting, cliqe aqui

FDA - Sobre Radiofrequência Microagulhada, clique aqui

FDA - Sobre implates mamários clique aqui



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