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Avibras nas mãos dos irmãos Batista: negócio estratégico ou uma nova relação de poder?

  • há 2 horas
  • 5 min de leitura


Aquisição de 100% da Nova AVB, controladora da Avibras Aeroco, coloca os irmãos Joesley e Wesley Batista diante de um setor considerado estratégico para a soberania nacional. Operação ainda depende de aprovação do CADE  e levanta perguntas que vão muito além do valor da transação.

 

Os empresários Joesley e Wesley Batista, por meio da Globe Investimentos, veículo de investimentos ligado à família, fecharam um acordo para adquirir 100% das ações da Nova AVB S.A., holding que controla integralmente a Avibras Aeroco, fabricante brasileira de sistemas de defesa e equipamentos para os setores bélico e aeroespacial. A operação foi submetida ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e, portanto, embora o acordo de aquisição tenha sido firmado, a transferência definitiva do controle ainda depende da aprovação do órgão e do cumprimento das demais condições previstas para o fechamento.

 


A operação não será realizada diretamente pela JBS. A aquisição ficará sob responsabilidade da Globe Investimentos, estrutura utilizada pela família Batista em outras operações de investimento. Ao apresentar o negócio ao CADE, os compradores classificaram a aquisição como uma oportunidade de entrada nos mercados de defesa nacional e aeroespacial e afirmaram que pretendem contribuir para a reestruturação, preservação da capacidade tecnológica e retomada sustentável da empresa. (Folha de S. Paulo)

 

É justamente nesse ponto que começam as perguntas.

Por que a Avibras?

 

A companhia não é uma empresa comum. A Avibras possui histórico de desenvolvimento de tecnologias sensíveis para a indústria de defesa brasileira, incluindo sistemas de artilharia, mísseis, foguetes, veículos especiais e projetos relacionados ao setor espacial. Entre seus produtos mais conhecidos está o sistema Astros.

 

A empresa atravessou uma das maiores crises de sua história. Entrou em recuperação judicial em 2022, enfrentou anos de paralisação e uma prolongada crise trabalhista, até retomar suas atividades industriais em 2026.

 

Antes da aquisição, a Avibras recebeu uma captação de aproximadamente R$ 300 milhões, com participação de investidores brasileiros, entre eles Joesley Batista. O valor individual aportado pelo empresário não foi divulgado. (UOL Economia)

 

Agora, poucos meses depois da retomada industrial, os mesmos investidores avançam para a aquisição integral da estrutura que controla a nova companhia.

 

Coincidência empresarial? Estratégia de investimento de longo prazo? Ou uma oportunidade identificada justamente durante o processo de recuperação de um ativo considerado estratégico?

 

São perguntas legítimas e que deverão ser respondidas com fatos, documentos e transparência. Outro elemento que chama atenção é o momento político e institucional da operação.

 

Em 24 de julho de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou pessoalmente as instalações da Avibras Aeroco, em Jacareí, acompanhado de autoridades civis e militares. Na ocasião, foram apresentadas as estruturas industriais, os projetos de defesa e as capacidades tecnológicas da empresa. (Serviços e Informações do Brasil)

 

A visita ocorreu poucas semanas antes do anúncio da aquisição pelos irmãos Batista. Além do presidente da República, autoridades do Ministério da Defesa e do Exército Brasileiro também estiveram recentemente na companhia, evidenciando a importância atribuída pelo Estado brasileiro à recuperação da capacidade industrial e tecnológica da Avibras. (Serviços e Informações do Brasil)

 

Isso, por si só, não demonstra qualquer irregularidade ou relação causal entre a atuação do governo e a aquisição. Mas, jornalisticamente, é impossível ignorar a coincidência temporal.

 

Uma empresa estratégica, recém-reestruturada, volta a operar, recebe aporte privado com participação de Joesley Batista, recebe a visita do presidente da República e, pouco tempo depois, surge um acordo para a aquisição de 100% de sua controladora pelos irmãos Batista.

 

O cenário merece acompanhamento. E o PT? E os irmãos Batista?

É nesse ponto que o negócio ganha uma dimensão política que precisa ser tratada com cautela.

 

Os irmãos Joesley e Wesley Batista carregam um histórico empresarial que ultrapassa o setor privado e inclui episódios de enorme repercussão política no Brasil, especialmente durante a crise institucional que envolveu a JBS e o governo Michel Temer.

 

Ao mesmo tempo, o atual governo Lula tem defendido o fortalecimento da indústria nacional de defesa e o aumento da capacidade tecnológica brasileira. A aproximação entre grandes grupos empresariais e governos, entretanto, não é ilegal por si só. Empresas estratégicas dependem, em muitos casos, de contratos públicos, financiamento, incentivos, regulamentação e decisões de Estado.

 

O que precisa ser esclarecido?

A operação abre uma série de questões que interessam não apenas aos acionistas, mas também aos trabalhadores, às Forças Armadas e à sociedade brasileira:

 

·         Qual foi o valor efetivamente negociado pela aquisição?

·         Como serão tratados os passivos e compromissos remanescentes da companhia?

·         Quais serão os investimentos previstos pelos novos controladores?

·         Haverá participação do governo brasileiro no financiamento ou na contratação dos projetos?

·         Quais contratos públicos poderão ser firmados ou ampliados após a mudança de controle?

 

·         Como serão protegidas tecnologias consideradas estratégicas para a Defesa Nacional?

·         Haverá mudanças na estrutura societária ou novos investidores?

·         Qual será o papel do Estado brasileiro na nova fase da empresa?

·         E talvez a principal pergunta:

 

o que está por trás de uma aquisição dessa magnitude em um setor tão sensível justamente quando o governo federal demonstra interesse explícito na recuperação da Avibras?

Outro ponto fundamental é que a operação ainda não está definitivamente concluída. A Globe Investimentos notificou o CADE sobre a aquisição e solicitou análise pelo rito sumário, argumentando que não haveria sobreposição relevante entre as atividades da Avibras e os demais negócios dos compradores. (Folha de S. Paulo)

Assim, neste momento, é tecnicamente mais correto falar em acordo para aquisição de 100% da controladora da Avibras, e não simplesmente afirmar que os irmãos Batista já assumiram definitivamente o controle operacional da empresa.

A análise concorrencial é apenas uma das etapas. O fechamento depende também do cumprimento das demais condições estabelecidas no contrato.


A pergunta que fica...

A recuperação da Avibras pode representar uma oportunidade importante para o Brasil recuperar capacidade industrial, tecnológica e estratégica em um setor de alta complexidade?

A entrada de capital privado pode significar empregos, investimentos, modernização e retomada de projetos que estavam paralisados. Mas, quando o ativo envolve mísseis, foguetes, sistemas de defesa, tecnologia estratégica e possíveis contratos estatais, a sociedade tem o direito de perguntar como essa nova estrutura será conduzida.


E quando os compradores são Joesley e Wesley Batista, empresários cuja trajetória já esteve no centro de algumas das maiores controvérsias político-empresariais do país, a necessidade de transparência se torna ainda maior. Não se trata de afirmar que exista algo ilícito por trás da operação não há, até o momento, evidência apresentada nas fontes consultadas que permita fazer essa afirmação.

Porque, diante de uma operação que une uma indústria estratégica de defesa, capital privado, os irmãos Batista, investimentos anteriores na própria empresa e uma recente aproximação institucional com o governo Lula, algumas perguntas são inevitáveis.

·         O que exatamente está sendo comprado?

·         Quanto realmente vale esse ativo?

·         Quem poderá se beneficiar dessa nova configuração?

E, principalmente:

·         Qual será o papel do Estado brasileiro nessa nova Avibras?

 

As respostas deverão aparecer nos próximos capítulos — e merecem ser acompanhadas de perto.

 

Texto: MOSTB.com


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