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Americanas: do império de Lemann, Telles e Sicupira ao maior escândalo corporativo da história do varejo brasileiro

  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Por mais de quatro décadas, a Americanas foi considerada um dos maiores símbolos do capitalismo brasileiro. Sob a influência de Jorge Paulo Lemann, Marcel Herrmann Telles e Carlos Alberto "Beto" Sicupira, o grupo consolidou uma cultura empresarial baseada em meritocracia, eficiência operacional e expansão agressiva de negócios.


Os três empresários também foram responsáveis pela criação da AmBev, posteriormente incorporada à AB InBev, formando a maior cervejaria do mundo. Além disso, construíram um império empresarial por meio da 3G Capital, controlando ou investindo em gigantes como Burger King, Kraft Heinz, Restaurant Brands International (Burger King, Popeyes e Tim Hortons), além da própria Americanas. Até 2021, eram os controladores da varejista; após a fusão com a B2W, passaram à condição de acionistas de referência.



A Americanas foi fundada em 1929, em Niterói (RJ), por investidores norte-americanos.

Em 1982, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira assumiram o controle da companhia, iniciando um processo de profissionalização que transformou a empresa em uma das maiores redes varejistas do país.


Em 11 de janeiro de 2023, o recém-empossado presidente Sergio Rial, que havia assumido o cargo apenas nove dias antes, anunciou ao mercado a descoberta de "inconsistências contábeis". Inicialmente, o valor estimado era de aproximadamente R$ 20 bilhões. Poucos dias depois, verificou-se que o problema era muito maior.

Em 19 de janeiro de 2023, a Americanas ingressou com pedido de recuperação judicial, informando possuir cerca de R$ 42,5 bilhões em dívidas, envolvendo mais de 16 mil credores, entre bancos, fornecedores e investidores. Na ocasião, a empresa possuía apenas cerca de R$ 800 milhões em caixa, muito abaixo do que constava nas demonstrações financeiras anteriores.


Segundo as investigações conduzidas pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o principal mecanismo utilizado envolvia operações conhecidas como "risco sacado".

Na prática:

  • empréstimos bancários eram registrados como dívidas com fornecedores;

  • o verdadeiro endividamento permanecia oculto;

  • os balanços apresentavam resultados financeiros artificialmente melhores;

  • investidores e bancos eram induzidos a acreditar que a companhia possuía situação financeira mais sólida do que realmente apresentava.

O Comitê Independente contratado pela própria Americanas concluiu posteriormente que houve manipulação deliberada das demonstrações financeiras durante vários anos.


As primeiras investigações concentraram-se na antiga diretoria da companhia.

Entre os principais nomes estão:

  • Miguel Gutierrez (ex-CEO);

  • Anna Christina Ramos Saicali (ex-diretora);

  • diversos ex-diretores financeiros;

  • integrantes da antiga administração.

Em junho de 2024, a Polícia Federal deflagrou a Operação Disclosure, cumprindo:

  • mandados de prisão;

  • mandados de busca e apreensão;

  • bloqueio inicial de aproximadamente R$ 500 milhões em bens dos investigados.

Gutierrez chegou a ser incluído na lista da Interpol, sendo localizado na Espanha.


Em dezembro de 2023, os credores aprovaram o plano de recuperação judicial.

O acordo previa:

  • R$ 12 bilhões aportados por Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira;

  • conversão de aproximadamente R$ 12 bilhões em créditos bancários;

  • reestruturação das dívidas da companhia.

No total, o plano movimentou cerca de R$ 24 bilhões para permitir a continuidade das operações da varejista.


Em 25 de junho de 2026, a Polícia Federal iniciou a segunda fase da Operação Disclosure.

A principal novidade foi o avanço das investigações para além da antiga diretoria.

Entre os alvos estavam:

  • Carlos Alberto "Beto" Sicupira;

  • Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann;

  • ex-conselheiros;

  • executivos ligados à governança da companhia.

Também foram cumpridos mandados contra pessoas ligadas a instituições financeiras envolvidas nas operações investigadas.


A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro autorizou:

  • buscas e apreensões;

  • bloqueio e sequestro de bens;

  • indisponibilidade patrimonial de até R$ 54 bilhões.

O valor corresponde ao montante estimado da fraude investigada e não significa que cada investigado tenha bens nesse valor. Trata-se do teto global fixado judicialmente para resguardar eventual reparação de danos.


Segundo a PF, as novas diligências procuram esclarecer se a fraude permaneceu ativa durante anos sem o conhecimento dos acionistas de referência ou se integrantes da estrutura de controle tinham ciência das irregularidades.

Até o momento:

  • não há condenação dos controladores;

  • os empresários negam qualquer participação;

  • afirmam ter sido enganados pela antiga administração;

  • sustentam que também sofreram prejuízos bilionários com a fraude.

Essa é uma das principais questões que ainda dependem de apuração judicial.


A revelação das inconsistências contábeis provocou um dos maiores colapsos da história recente do mercado financeiro brasileiro.

Entre os efeitos registrados:

  • perda de dezenas de bilhões de reais em valor de mercado;

  • ações despencando de cerca de R$ 12 para menos de R$ 0,40 ao longo da crise;

  • recuperação judicial entre as maiores já registradas no Brasil;

  • prejuízos para bancos, investidores, fornecedores e acionistas minoritários;

  • abertura de investigações pela CVM, Polícia Federal e Ministério Público Federal.


Embora Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira também sejam conhecidos pela construção da AmBev e pela criação da AB InBev, a Ambev não possui responsabilidade pelas dívidas da Americanas.

As empresas pertencem ao mesmo círculo histórico de investidores, mas possuem estruturas societárias independentes. A fraude investigada refere-se exclusivamente às demonstrações financeiras da Americanas.

Cronologia dos principais acontecimentos

Data

Evento

1929

Fundação da Americanas em Niterói.

1982

Lemann, Telles e Sicupira assumem o controle da empresa.

Julho de 2021

Fusão entre Americanas e B2W; trio deixa de ser controlador direto e passa a acionista de referência.

11/01/2023

Sergio Rial anuncia inconsistências contábeis de aproximadamente R$ 20 bilhões.

19/01/2023

Pedido de recuperação judicial com cerca de R$ 42,5 bilhões em dívidas.

19/12/2023

Credores aprovam plano de recuperação judicial.

27/06/2024

Primeira fase da Operação Disclosure, com foco na antiga diretoria.

2024

Comitê Independente conclui que houve fraude contábil deliberada.

25/06/2026

Segunda fase da Operação Disclosure alcança pessoas ligadas ao grupo controlador; Justiça autoriza bloqueio de até R$ 54 bilhões.

Esse caso permanece em investigação. As responsabilidades individuais ainda serão definidas pela Justiça, e os investigados têm direito ao contraditório e à ampla defesa.


Texto: mostb.com

Fontes: Comissão de Valores Mobiliários (CVM) gov.br ; Polícia Federal https://www.gov.br/pf; Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) https://www.trf2.jus.br; Americanas S.A. – Relações com Investidores https://ri.americanas.io;  Brasil, Bolsa, Balcão https://www.b3.com.br;

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